sábado, 31 de julho de 2010

Não cremos na dor sem Deus

Ronaldo Lidório

Sempre lembramos de Atos como um livro que descreve um Deus que intervém sobrenaturalmente. São línguas de fogo sobre os discípulos, coxos andando, demônios exorcizados, anjos socorrendo os apóstolos e até a sombra de Pedro transformada em instrumento de cura. Mas nem sempre era assim: Estêvão foi martirizado, Paulo preso e açoitado, discípulos fiéis mortos ao fio da espada e lançados aos leões. Além da nossa finita lógica e curta compreensão da história, entre milagres e tragédias, o Senhor Jesus era glorificado e a igreja avançava.

A expectativa do povo de Deus é sempre ver a resposta do Senhor em meio ao sofrimento. Mas Atos mostra-nos uma verdade aplicável ao nosso dia-a-dia: nem sempre Deus intervém sobrenaturalmente. Porém Ele não deixa de ser o senhor da situação. Em face da tragédia pessoal, somos convidados a compreender que é preciso olhar além da vida e entender que o projeto maior de nossa existência — glorificar a Deus — não pode ser revogado.



O sofrimento possível

Em Atos 8, Lucas relata que “levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” (v. 1) e escolhe o termo grego diogmos para definir “perseguição”. Distintamente de efistamai (ataque), a expressão diogmos está ligada ao sofrimento físico: causar dores, fazer sofrer, punir com sofrimento. A igreja experimenta de forma violenta o amargo sofrimento e Lucas descreve este diogmos: o sepultamento de Estêvão, a prisão dos fiéis e a dispersão. Mas, inspirado, ele vai além. Ao mencionar o martírio de Estêvão (v. 2), relata que houve um grande “pranto”, usando o termo kopeton, que pode ser lido literalmente como “bater no peito” e indica o sofrimento emocional, a dor da alma, o choro inconformado do coração. Ao lado de diogmos, apresenta um sofrimento físico (fuga, prisões, martírio e espancamentos) e emocional (medo, insegurança, saudade e depressão). O historiador afirma ainda que Saulo “assolava” a igreja (v. 3), utilizando elumeinato. Este termo, derivado de lumaino, aponta para uma assolação (destruição) não apenas física e emocional mas também espiritual. É o mesmo termo usado em João 10.10, em que lemos que o diabo veio roubar, matar e “destruir”.

O primeiro relato de Atos 8 é surpreendente: descreve a igreja sofrendo forte ataque físico (diogmos), emocional (kopetos) e espiritual (lumaino). O contexto não centraliza a igreja, mas sim o ataque a ela perpetrado, o esquema maligno do qual a comunidade de Jesus era alvo, a oposição sobre-humana que atacava o corpo, fazia doer a alma e tentava solapar a fé. A igreja sofria.

O sofrimento continua presente entre o povo de Deus hoje. A violência impera na família, vidas são ceifadas em trágicos acidentes, a enfermidade não abandona o corpo, o desemprego e as dívidas tiram o sono, a depressão se abate profusamente sobre a alma e a fé é provada no fogo. Mas a fidelidade do Pai mostra-nos que, no mais terrível sofrimento, Ele continua sendo Deus, nunca se ausenta. Mesmo quando silencia, no momento em que preferiríamos um poderoso e miraculoso grito, Ele continua sendo Pai e Senhor. Quando Deus se cala é preciso olhar além da vida, em total dependência, e crer que Ele é maior do que os homens.

Cantamos um hino aqui em Gana que diz:

Não vivemos para celebrar o sofrimento;
Nem também para chorar;
Mas quando ele vier choraremos;
No sofrimento há Deus;
Não cremos na dor sem Deus,
Não cremos na dor sem Deus.
O Deus do impossível

Mas existe o outro lado da moeda, que nos incita a esperar contra a esperança e crer no Deus dos milagres. Entender o sofrimento como algo possível não implica em perdermos a expectativa de ver Deus abrir os céus e agir. Geneticamente, na linguagem da fé, nascemos em Cristo com a tendência de crer no impossível.

Voltando a Atos 8, vemos que a igreja sofria pois “foram dispersos pelas regiões de Judéia e Samaria” (v. 1); “Entrementes os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (v. 4). Mesmo no sofrimento, Deus faz a história caminhar para glória do seu nome e o avanço da sua igreja.

O evangelho sofre com o martírio de Estêvão, homem cheio do Espírito Santo (v. 2). Cai um grande líder e incansável pregador. Mas Deus levanta Filipe, também cheio do Espírito, que “descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo” (v. 5).

Muitos são arrastados e encarcerados após o grande pranto sobre Estêvão, a igreja se dispersa e a violência assola famílias inteiras (v. 3). Tristeza e melancolia era o que se esperava, mas no final “houve grande alegria naquela cidade” (v. 8). Deus faz o impossível no corpo, na alma e na fé do seu povo.

Em nossa vida, Deus nunca será surpreendido. A despeito do possível caos, das inúmeras derrotas, do vazio no coração, da falta de fé, da ausência de respostas, Deus nunca foi nem jamais será surpreendido pelo que possa nos roubar a expectativa de um dia voltarmos a ser felizes. Ele detém o direito autoral de escrever cada capítulo da nossa existência. É soberano e tem o domínio da nossa história, mesmo quando se cala.

Mas Deus não somente se cala. Ele também fala. Por isso, perante qualquer obstáculo, devemos crer que o Deus dos impossíveis pode fazer o impossível acontecer.

Mesmo quando o sofrimento vem, Deus permanece no controle de tudo e, portanto, no controle do nosso sofrimento. Olhar além da vida é olhar para o projeto maior na mente do Senhor, é reconhecer que Deus é maior que o homem, que a sua glória importa mais do que a nossa. Como diz o cântico, não cremos na dor sem Deus.



Ronaldo Lidório é missionário da Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana do Brasil e da Missão Amem no interior de Gana, África, onde está traduzindo a Bíblia para a língua Chakali.
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As mãos que foram perfuradas na cruz enxugarão nossas lágrimas

Rubens Lessa

No momento em que começo a escrever esta página, olho para o calendário afixado numa estante ao lado do meu computador, e leio: 22 de agosto de 2000. Sem dúvida alguma, milhares e milhares de pessoas, ao redor do mundo, estão completando mais um ano de vida nesta data, inclusive minha filha Kathia, que é deficiente mental.

Ela não sabe que está completando 15 anos. E jamais entenderá, neste mundo, que acordei às 4 horas da manhã para agradecer a Deus o presente que ela representa para mim e para minha esposa. Ela não sabe que, ao ler a meditação de hoje, na qual falo sobre suas limitações mentais, renovei meu propósito de confiar mais ainda no poder divino, para desfrutar o privilégio de tê-la a meu lado, na Nova Terra, através da eternidade. Ela não sabe que o hino cantado no culto da Casa Publicadora, hoje cedo — “Deus sabe, Deus ouve, Deus vê”— foi um bálsamo para mim. Ela não sabe que, após o culto, fui a um lugar à parte, em meio à bela natureza que circunda nossa editora, para meditar e orar. Ela também não sabe que hoje recebi telefonemas e e-mails de todas as partes do Brasil, e até mesmo do exterior, dando-lhe os parabéns e dizendo-me palavras de ânimo e conforto. Ela não sabe que algumas crianças telefonaram dizendo: “Um beijão para Kathia!” Ela não sabe que um leitor da Revista Adventista me telefonou e quase não pôde falar, mas chorou muito. Ele, no entanto, “falou” o que eu precisava ouvir.

Um dia, quero apresentar à minha filha todas as pessoas que hoje me telefonaram e enviaram-me e-mails. Então, ela entenderá o significado dessas palavras ditas a um viajor cansado.

Na meditação de hoje, termino com o seguinte pensamento para reflexão: “Logo mais, as mãos que foram perfuradas na cruz enxugarão nossas lágrimas”.

Ergamos, portanto, a cabeça, porque a nossa salvação se aproxima. Confiemos na graça divina e aceitemos, com paciência, as lutas e provações da vida pois “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).



Rubens Lessa é redator-chefe da Revista Adventista, da qual foi retirado, com permissão, este testemunho.

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